Houve uma época em que os homens não conheciam o camelo, e quando o viram pela primeira vez ficaram tão apavorados com a figura estranha daquele animal tão desengonçado quanto feio, que não conseguiram pensar em outra coisa senão fugir depressa, e para o mais longe possível.
Mas depois de algum tempo eles foram chegando à conclusão de que aquele bicho aparentemente perigoso era, na verdade, pacífico e inofensivo, e ao terem certeza disso os homens finalmente se aproximaram dele sem receio e o domesticaram, fazendo com que aceitasse o cabresto e a rédea que lhe colocaram na cabeça, que permitisse ser montado por pessoas, e chegasse a tal ponto de docilidade que inclusive podia ser conduzido mansamente até mesmo por crianças.
Moral da história: O desconhecido nos inspira receio e prudência, mas uma observação atenta permitirá que possamos fazer dele um melhor juízo.
Baseado em uma fábula de Esopo.
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Choco é uma perturbação orgânica e fisiológica que sobrevém às galinhas após o período de postura (podendo também ser provocada por uma alimentação deficiente), caracterizada de forma geral pela elevação de sua temperatura corporal, falta de apetite e irritabilidade, o que normalmente leva essas aves a aninhar. Daí o surgimento da expressão popular ‘ficar no choco’, cujo sentido é o de alguém se mantendo no leito ou ficando recolhido em casa.
Em virtude disso é comum que se use, no interior do país, o processo caseiro de fazer com que as galinhas saiam o mais depressa possível desse período em que sua produção de ovos fica reduzida à zero, ou seja, a ave é colocada debaixo de um balaio (cesto de palha, taquara, cipó ou bambu, com ou sem tampa, usado para guardar ou transportar alguma coisa) e de pé sobre uma poça d’água, para que não possa se deitar na posição em que normalmente permanece durante essa época de chocagem, e assim acabe esquecendo em pouco tempo o seu instinto de chocadeira e volte a produzir ...
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VINHO
Na mitologia grega, Dionísio (Baco, para os romanos), filho de Zeus e da princesa Semele, conhecido como o deus do vinho, é a única divindade que teve como mãe uma mortal. Diz a lenda que Zeus, o deus supremo, depois de conceder a Sêmele um pedido que a levou à morte, entregou Dionísio às ninfas, que cuidaram dele durante a infância. Ao se tornar homem, ele se apaixonou pela cultura da uva e descobriu a arte de extrair-lhe o suco.
Porém, a inveja de Hera levou Dionísio a ficar louco e vagar por várias partes da Terra. Quando passou por Frigia, a deusa Réia o curou e o instruiu em seus ritos religiosos. Curado, ele atravessou a Ásia ensinando a cultura da fruta. Quis introduzir seu cultivo na Grécia, depois de voltar triunfalmente da sua expedição à Índia, mas encontrou oposição de alguns príncipes receosos do alvoroço causado por ele. Por causa dessa sua paixão pela cultura da uva, Dionísio após sua morte, passou a ser cultuado ...
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O rio sereno acompanha a amplidão, de um amarelo cremoso infinito.
Um verde enraizado no sertão, forma com as águas um aparente quadro bonito.
A menina ampara quatro balões na mão, como que seguindo um rito.
No seu olhar transparece a solidão, e a vontade de soltar um grito.
Seus olhos buscam a vastidão, e depois o céu de nitrito.
Sente o cheiro de dedetização, na atmosfera de hipossulfito.
Aves voam com lentidão, ao longe um tatu em conflito.
A terra com jeito de consternação, a água com um odor indescrito.
Seus olhos se fecham em comiseração, seu rosto totalmente contrito.
Domina-lhe uma tensa comoção, na mente um pensar restrito.
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Mamãe pintassilgo fizera seu ninho em uma árvore de ramagem fechada, e por isso acreditava que os filhotes que ali criava estariam a salvo de qualquer perigo. Certo dia, porém, quando retornou à habitação trazendo no bico uma minhoca para alimentar os pequerruchos, descobriu que eles tinham desaparecido. Desesperada, a pobre mamãe começou a procurá-los por toda parte, dia e noite sem comer ou dormir, vasculhando o chão e as árvores, ali por perto e mesmo um pouco mais longe, mas em vão, nenhum sinal deles foi encontrado. Os outros pássaros entendiam o por quê do seu choro e das suas lamúrias, mas nenhum deles tinha conhecimento de alguma informação que pudesse ajudá-la na busca que fazia.
Três dias depois um canário que viera de outras bandas e estava ali só de passagem, ficou sabendo da história e revelou que tinha sobrevoado a casa do fazendeiro mais próximo, e vira que ele mantinha três filhotes de pintassilgo presos em uma gaiola. Alvoroçada, a mamãe pintassilgo logo voou para a tal fazenda, pousou no telhado da residência, dali desceu para ...
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Robin Hood foi um personagem fantástico criado em 1377 pela fértil imaginação de William Langland, que o colocou como o herói do poema épico Piers Plowman? Ou será que ele só ganhou notoriedade após a divulgação de Gesta de Robin Hood, uma coleção de seus feitos e aventuras que os trovadores ingleses cantaram por todo o país a partir de 1400, transformando-o numa espécie de Batman dos tempos antigos?
Ninguém sabe dizer, nesse caso, aonde está a verdade ou a ficção. Do que se tem conhecimento é que muito depois disso o estadunidense Howard Pyle (1853-1911), ao publicar no início do século 20 o livro Robin dos Bosques, ressuscitou a figura do arqueiro inglês, despertando nos donos da indústria cinematográfica de Hollywood o interesse pela filmagem de diversas aventuras do “justiceiro que roubava dos ricos para dar aos pobres”. E foi o que eles fizeram. Entre essas histórias, exibidas em cinemas do mundo inteiro, encontram-se Robin Hood, de 1922, com Douglas Fairbanks no papel principal; As Aventuras de Robin Hood, de 1938, com Errol Flynn no papel principal ...
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Devido à sua grande força e docilidade, e ainda à facilidade com que podem ser amestrados, os elefantes têm sido domesticados ao longo do tempo principalmente na Índia, onde são usados em diferentes tipos de trabalho. Os registros históricos comprovam que os homens os aproveitavam desde épocas remotas, e que alguns povos antigos os empregavam como veículo e arma nas batalhas que travavam. Como aconteceu no ano 326 a.C., quando pela primeira vez os gregos tiveram que enfrentar duzentos elefantes, ou com Alexandre Magno (356-323 a.C.), rei da Macedônia, que ao expandir seu império levou com ele número igual desses animais, o mesmo fazendo todos os seus sucessores. Também egípcios e cartagineses recorreram em grande escala aos elefantes de guerra africanos, e até mesmo os romanos tentaram utilizá-lo no século II a.C., mas somente em pequeno número.
A história do elefante é marcada pelo respeito com que eram vistos pelos homens do Oriente. Quando no século XVI os portugueses chegaram ao antigo Sião, hoje Tailândia, e depois deles os holandeses, ingleses e franceses, encontraram, na região, costumes e modos ...
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MUIÉ PEQUENA
Constantino Cartaxo
Apois bem, solta no mundo / tem muié de todo jeito. / Tem muié baixa, bem alta, / magra, de corpo perfeito. / Tem muié preta, bem branca, / tem calma, tem impigente, / tem muié qui ném pimenta / das malaguetas que arde. / Tem muita muié decente./ Tem muita muié covarde.
Umas de cara esquisita, / com rosto cheio de espinha. / Tem tanta muié bonita, / tão linda quando caminha... / (Santo Deus, que formosura!...) / quage torando a cintura, / enchendo a vista da gente, / passando por nossa frente, / com seu corpo balançando, / mexendo, se rebolando, / qui nem cobra em terra quente.
Muié gorda, arredondada, / com a cintura de barrica. / Muié de espinha entortada / qui sei lá cumo é que fica!.../ cum jeito bem diferente, / cuns quartos bem pracolá, / num sei cuma não se cansa. ...
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O caminhante seguia sozinho pela estrada em busca do seu destino, quando avistou uma espada perdida em meio à vegetação rasteira que cobria a beira do caminho. Ele foi até onde ela se encontrava e a pegou com certo cuidado, observando atentamente a bainha bem trabalhada, a pureza do aço da lâmina que brilhava ao sol, a beleza do seu punho e guardas. Uma vez terminado o exame visual o caminhante perguntou-lhe quem a tinha perdido, ou então a deixara esquecida ali, naquele pedaço de chão. A espada a princípio permaneceu calada, mas ao ser inquirida pela segunda vez, decidiu responder:
- Embora estejas me vendo desse jeito, jogada ao solo como se não tivesse valor algum, a verdade é que ninguém me perdeu ou quis se livrar de mim. Muito pelo contrário! Os que me querem são tantos, que não consigo contá-los. Apesar disso, eu já provoquei a perdição de muita gente, porque dando oportunidade a que acontecessem brigas, matei muitos homens, e o resultado foi que os matadores perderam o rumo de suas vidas, enquanto os mortos mais ...
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Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
arrolo - canto para acalentar crianças
clangor - ...
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Em represália ao rompimento de relações diplomáticas do Brasil com os países do Eixo, a partir de janeiro de 1942 vários navios mercantes brasileiros foram torpedeados por submarinos alemães. A esses incidentes seguiu-se uma forte mobilização popular em favor da entrada do país na Segunda Guerra Mundial para lutar ao lado dos Aliados contra o nazismo e fascismo. O governo brasileiro finalmente declarou guerra à Alemanha e à Itália em agosto de 1942, mas só após ajustes difíceis com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB), que levou o Brasil ao teatro de operações na Itália. A contradição entre lutar a favor da liberal-democracia ao lado dos Aliados na Europa e manter uma ditadura no país em muito contribuiria para a queda de Vargas e o fim do Estado Novo em 29 de outubro de 1945.
O rompimento de relações diplomáticas do Brasil com os países do Eixo, anunciado ao final da Reunião de Chanceleres do Rio de Janeiro, em 28 de janeiro de 1942, tornou os navios brasileiros alvo de ataques dos submarinos ...
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Somos enforcados. Em Coromandel, num acesso de fúria, matamos a facadas nosso dono. Não queríamos isso. A princípio, pensamos apenas em defender-nos e assustá-lo, para que ele não nos matasse a porretadas. Mas quando o senhor viu nossa reação, ficou indignado e disse que nos mataria a pancadas, como se mata um cachorro danado.
Depois, trouxeram-nos para Araxá, amarrados e vigiados todo o tempo. Batiam-nos sempre, xingavam-nos de todo nome ruim que conheciam, e diziam que muitas vezes iríamos nos arrepender de ter nascido. Brancos, sonsos, como se nós tivéssemos escolhido semelhante modo de vida...
Houve o júri. Dizem que era estréia. Todo mundo foi assistir. O Promotor falou muito, o Advogado de Defesa quase nada. Não adiantava. Todos sabiam qual seria o resultado. Menos nós, que ainda tínhamos alguma esperança.
Quando o juiz leu a sentença, eu senti um fogo subir da boca do meu estômago, as pernas ficaram bambas e tive vontade de chorar, mas as lágrimas não ...
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Teofrasto (372-287 a.C.), filósofo grego, foi um grande divulgador da ciência. Dos seus muitos escritos destacam-se “Historia plantarum” (História das plantas) e “De causis plantarum” (Sobre as causas das plantas), tratados que constituem a mais importante contribuição à ciência botânica de toda a antiguidade até ao Renascimento, além de “O Caráter”, obra que não só descreve os tipos de moral que orientam a conduta dos seres humanos, como também faz uma valiosa e mordaz descrição de como era vida em sua época. Atribui-se a ele a autoria da frase “O tempo é muito caro”, primeira menção que se conhece sobre a relação entre o espaço temporal que separa os fatos acontecidos na vida de cada um, e o valor pecuniário que a ele pode ser atribuído. Mais de mil anos depois, o norte-americano Benjamim Franklin (1706-1790), inventor do pára-raios, também teria chegado a essa mesma conclusão após ler os livros do filósofo da antiguidade, criando, então, a frase “tempo é dinheiro”, que se transformaria mais adiante em uma das regras básicas do capitalismo.
Mas o que tempo e ...
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O Conselho Ultramarino português, órgão regulamentado em julho de 1642 para tratar de todas as matérias e negócios de qualquer qualidade que fossem relativos à Índia, Brasil, Guiné, ilhas de São Tomé e Cabo Verde e demais partes ultramarinas, havia autorizado os habitantes da capitania brasileira do Grão-Pará, em 1752, a organizar uma companhia para o tráfico de africanos. O governador e capitão-mor daquela capitania, Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1700-1769), irmão de José Sebastião de Carvalho e Melo, o marquês de Pombal (1699-1782), tentou reunir os fundos necessários à realização do projeto, mas como o dinheiro arrecadado não alcançou montante suficiente, uma delegação de moradores da localidade decidiu então ir a Portugal para tentar convencer capitalistas portugueses a participarem da sociedade. O que realmente foi conseguido após autorização do rei Dom José I (1714-1777).
Mendonça Furtado servia no exército quando seu irmão assumiu o governo, sendo então designado para os cargos que ocupou nas províncias brasileiras do Pará e Maranhão, com a incumbência de reprimir as atividades dos jesuítas e obrigar os índios, que eles dominavam, a submeter-se ao ...
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Costuma-se dizer essa frase quando se quer falar mal do governo, atribuindo os problemas ao povo que o escolheu. Seu autor, o francês Joseph-Marie de Maistre (1753-1821), escritor, filósofo, diplomata e advogado, inimigo das repúblicas e defensor das monarquias e do papa, foi um dos proponentes mais influentes do conservadorismo contra-revolucionário no período imediatamente seguinte à Revolução Francesa de 1789. No fundo, a expressão não critica os maus governos, mas sim aos responsáveis pela eleição de seus representantes. Por isso, cabe com perfeição aos regimes escolhidos por voto popular.
Para explicá-la, nada melhor que os versos de Affonso Romano de Sant'Anna (1937), mineiro de Belo Horizonte, sobre o qual já se disse que “Considera o livro ainda muito elitista, sofisticado, de acesso impossível às camadas mais pobres de nossa sociedade. Saber que seus poemas, como ‘A Implosão da Mentira’, ‘Que país é este?’ (traduzido para o espanhol, inglês, francês e alemão) e ‘Sobre a atual vergonha de ser brasileiro’, estavam sendo lidos nas casas, nas praias, nos clubes, transformados em poster e colocados nas paredes de escritórios e sindicatos, em ...
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