RATO DE BRASÍLIA, O
No início do ano da graça de 1995, a Assembléia Legislativa do Distrito Federal - leia-se deputados estaduais de Brasília, para melhor entendimento dos possíveis desentendidos - estava mergulhada em mais uma de suas polêmicas e apaixonantes discussões, que versava justamente sobre a escolha do animal-símbolo da capital da república. As preferências dos nobres parlamentares estavam divididas entre dois espécimes da abundante fauna silvestre brasileira, de um lado o lobo-guará, representando os animais terrestres, e de outro o peixe pirá, simbolizando os aquáticos.
Como acontece normalmente em nossos debates políticos - e esse nossos aí tem um sentido genérico, quer dizer, de todos nós, brasileiros - o disse-me-disse sobre a matéria decorria em ambiente calmo, polido e educado, com o grupo de cá acusando os mamíferos canídeos de pouco viris, enquanto o grupo de lá soltava os cachorros em cima do pequeno vertebrado fluvial, taxando-o de hermafrodita. No fundo, no fundo, até que os dois blocos se entendiam ...
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MENTIRAS
Mentir é afirmar como verdadeiro o que se sabe ser falso, ou então negar aquilo que corresponde à verdade.
Essa prática, embora incorreta e por isso mesmo condenável, é universal, e por isso as pessoas recebem todos os dias mensagens cujo conteúdo, na maioria das vezes, não é outro senão alguma afirmação inconseqüente e desprovida de maldade, mas que pode esconder, às vezes, objetivos desonestos ou perigosos.
No primeiro caso, aqui estão algumas das “mentirinhas” mais usadas por gregos e troianos em todos os segmentos de atividade da população:
- A amizade é o que importa.
- A deflação deste mês foi a maior dos últimos dez anos.
- A inflação vai cair.
- Acho que você me confundiu com outra pessoa.
- Amanhã, sem falta!
- Amo-te.
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A figura mítica da Quimera é oriunda da Anatólia, parte da Turquia correspondente à península da Ásia Menor, mas seu tipo físico surgiu na Grécia durante o século 7 a.C.. A versão mais conhecida da lenda a descreve como um monstro assustador, fruto da união entre Equidna e Tifon, duas criaturas de aparência terrível e apavorante.
Ela, metade serpente, metade mulher, mãe da Quimera, de Cérbero, da Hidra de Lerna e outros seres de conformação extravagante; enquanto ele possuía cem cabeças que tocavam o céu, e seus braços em cruz atingiam os limites do Ocidente e do Oriente; além do mais, seus olhos e a sua boca lançavam chamas, suas mãos terminavam em cabeças de dragão, e seu corpo munido de asas era cingido por serpentes.
Outras lendas, porém, dizem que Quimera era filha da hidra de Lerna e do leão de Neméia, ambos mortos por Hércules, e a descreviam como tendo cabeça de leão, torso de cabra e parte posterior de dragão ou serpente, por sinal a mesma representação plástica ...
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Na fronteira do Maranhão com o Piauí, em um lugar denominado Passagem de Santo Antônio, no rio Parnaíba, comenta-se que um carneiro gigantesco costuma aparecer aos viajantes que por lá transitam. Essa criatura fantástica possui na testa uma estrela resplandecente cujo brilho varia continuadamente entre os extremos da luminosidade, ora parecendo que vai extinguir-se tal como uma brasa que se apaga lentamente, ora voltando a incandescer-se com todo o esplendor que é possível imaginar.
Esse local fica perto da cidade maranhense de Coelho Neto, e não muito distante da localidade piauiense de União, e dizem que lá, há muito tempo, ladrões assaltaram um monge missionário que retornava ao convento com as esmolas que havia recolhido em suas andanças, mas que durante a ação que empreendiam os bandidos acabaram matando o religioso. Praticado o crime, eles se arrependeram do mal que haviam feito e por isso, cheios de remorsos, enterraram o corpo no local em que o mesmo havia tombado, juntamente com as moedas que estavam desejando roubar. Segundo a tradição, daí em diante o monge começou a aparecer durante ...
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Os iluminantes são assim mesmo, poucos, contam-se nos dedos. No entanto, alguns dedos são verdadeiras mãos, plêiades! Paul Gauguin são mãos que foragiram-se das civilidades pelas asas de exóticas falenas que à época habitavam as sul-pacíficas praias de um Taiti soberbo e miserável, sem calendas ou relógios, mas com todas as cores possíveis à alma de um mestiço de Tupac Amaru com Asteríx. O colonialismo pairava pelas vulcânicas polinésias e rubros vinhos de Bordeaux manavam de galeões rasgando superfícies das almas para expor as vísceras da arte. Arte que só tinha relevância se servida quente, como iguaria natural e perfumada com os feromônios de suas fêmeas cruas, amamentadas com genuína e jovial devassidão ao Leite de Cascavel e Mel Condensado coletados às 10h07m das manhãs na volúpia fresca do chacoalhar sonífero da maré vazante na orla empalmeirada e afrodisíaca. Um século cravado, contado em medidores TI: Antes de Benjamim Buttom ser concebido já Gauguin pintava um arraial de admirável morenês, como os brasis, em sua acepção mais comovente: um povo que se lê da esquerda para a direita, assim: do macróbio caquético bebendo seu próprio mijo ao micróbio púbere comendo seus próprios sobejos.
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Natural de Lisboa, onde nasceu em 13/05/1699, José Sebastião de Carvalho e Melo, futuro marquês de Pombal e conde de Oeiras, foi um jovem perdulário e arruaceiro, mas que desfrutava da proteção do frei Gaspar de Moscoso e Silva, politicamente influente no reinado de D. João V. Por isso o religioso conseguiu que seu protegido fosse enviado como embaixador para Londres, em 1738, onde permaneceu durante seis anos, e em seguida para Viena, na Áustria. Regressando a Portugal, um dos seus mestres o indicou a D. José I, que assumira o trono em 1750, em virtude da morte do pai, e o soberano o escolheu como titular da secretaria dos Negócios Estrangeiros.
Empossado no importante cargo, José Sebastião de Carvalho começou sua gestão determinando uma série de medidas que de tão enérgicas se confundiam com a prepotência. Entre as primeiras estavam a fundação da Companhia do Grão-Pará e Maranhão e a criação da Mesa do Bem Comum dos Homens de Negócio, que provocaram forte oposição. Como os deputados também pertencentes à Mesa do Bem Comum não se curvassem às decisões ...
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Uma rata novinha foi apanhada facilmente por um gato, porque sendo inexperiente, não conseguiu fugir a tempo do perigo que dela se aproximava sorrateiramente. Então, vendo-se presa entre as garras do caçador, a ratinha tentou enternecê-lo com o único argumento em que conseguiu pensar:
- Por favor, não me coma agora, gato bonito, porque eu sou pequenininha e por isso não vou saciar a sua fome. Seja clemente comigo, espere mais um pouco, e aí, quando eu já estiver grande, então sim, poderei ser uma bela refeição para você e seus filhos.
Ouvindo isso, o gato pôs-se a rir. E depois de dar boas risadas, disse à sua presa:
- Ser clemente? Eu? Um gato velho e escolado? Que esperança mais maluca é essa? Não vejo porque deixar para os meus filhos o saboroso petisco que você é, pois eles são jovens e dão conta de conseguir com facilidade o que desejam. Enquanto eu, que padeço ...
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Certo dia a mosca desentendeu-se com a formiga e por isso lhe disse presunçosa:
- Olha como falas comigo! Enquanto eu vivo livre e desimpedida nas alturas, tu caminhas somente pelo chão, e mesmo assim com grande esforço, porque precisas lutar a todo instante com os obstáculos que encontras pela frente. Eu moro em palácios e mansões, enquanto tu te escondes em uma cova escura e abafada. Minha alimentação é farta, rica e variada, enquanto tu tens que roer os grãos duros do trigo e da cevada para continuar vivendo. Em outras palavras, minha vida é boa e confortável, enquanto a tua é toda ela de muito trabalho e extrema fadiga.
Ouvindo isso, a formiga respondeu:
- Ora, dona mosca, essa tua mania de grandeza não tem o menor sentido, pois que importância tem que eu viva cá por baixo andando pelo chão, ou então que me esconda em uma cova, como dizes? Não te esqueças que essa cova é minha, pois ...
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A crença na existência de um bicho-papão, também conhecido em alguns lugares como cabra cabriola, criatura que ataca as crianças travessas, já era conhecida na Europa da Idade Média, existindo registros sobre ela na Espanha e Portugal daquele tempo. Essa narrativa chegou ao Brasil em meados do período colonial e foi sendo divulgada pouco a pouco nas cidades, até tornar-se amplamente conhecida. Em Pernambuco, no final do século 19 e princípio do século 20, corria a versão que o descrevia como um espírito maligno que tomava a forma de cabra e atacava as mães enquanto elas estavam amamentando os filhos, bebia seu leite diretamente nos seios e depois devorava os bebês.
Naquele tempo a lenda do bicho-papão, ou cabra cabriola, amedrontava qualquer menino ou menina que ouvisse falar dela. Os relatos diziam que era uma figura assustadora, metade cabra, metade monstro, e que aparecia soltando fogo e soprando fumaça pelos olhos, pelo nariz e pela boca, sempre pronta a atacar qualquer cidadão desprevenido que andasse pelas ruas desertas durante as noites de sexta-feira. Para piorar as coisas, as pessoas ...
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Faltavam poucas horas para o dia amanhecer quando o fazendeiro colocou em uma carroça o porco gordo, a cabra e o carneiro que havia apartado de véspera, e seguiu com eles em direção à vila, para vendê-los na feira que lá se realizaria naquela manhã.
Ao longo do caminho, a cabra e o carneiro permaneceram quietos no lugar aonde tinham sido amarrados, ao contrário do porco, que lutando sem sucesso contra a corda que mantinha suas patas presas umas às outras, como se fossem uma só, grunhia e roncava cada vez mais alto, desesperado com sua absoluta impotência diante daquela situação. Até que depois de algum tempo a cabra cansou-se da barulheira ensurdecedora que seu companheiro de viagem fazia, e então bradou irritada:
- Por que é que você está gritando tanto assim, “seu” gorducho escandaloso? Seja educado e faça como nós, que viajamos tranqüilos, aproveitando a frescura dessa madrugada que vai chegando ao fim.
- Educado? – respondeu o porco entre ...
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Conhecida há mais de 2.000 anos, a mágica é a arte de fazer coisas aparentemente impossíveis, usando truques e habilidade manual. De origem asiática, ela chegou a ser difundida na Europa antiga, mas entrou em declínio na Idade Média devido ao terror provocado pela crença em bruxas e demônios. Sua popularidade, porém, foi reconquistada no fim desse período, quando os mágicos passaram a fazer truques relativamente fáceis nas ruas, nas praças e nos castelos.
No século 18 a mágica passou a ser vista como perigosa porque a associavam às forças ocultas, ou seja, ligada ao Diabo e a espíritos estranhos. Foi no fim desse século que surgiram as idéias de magia branca – usada para fins benéficos, sobretudo a cura – e de magia negra – que provocaria o mal. No entanto, foi a Commédia dell’arte, precursora do teatro de variedades e do circo moderno, a grande responsável pela divulgação da mágica como diversão popular.
Embora ainda se exibissem nas ruas e nas feiras, os mágicos do século 19 começaram a ...
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Somos enforcados. Em Coromandel, num acesso de fúria, matamos a facadas nosso dono. Não queríamos isso. A princípio, pensamos apenas em defender-nos e assustá-lo, para que ele não nos matasse a porretadas. Mas quando o senhor viu nossa reação, ficou indignado e disse que nos mataria a pancadas, como se mata um cachorro danado.
Depois, trouxeram-nos para Araxá, amarrados e vigiados todo o tempo. Batiam-nos sempre, xingavam-nos de todo nome ruim que conheciam, e diziam que muitas vezes iríamos nos arrepender de ter nascido. Brancos, sonsos, como se nós tivéssemos escolhido semelhante modo de vida...
Houve o júri. Dizem que era estréia. Todo mundo foi assistir. O Promotor falou muito, o Advogado de Defesa quase nada. Não adiantava. Todos sabiam qual seria o resultado. Menos nós, que ainda tínhamos alguma esperança.
Quando o juiz leu a sentença, eu senti um fogo subir da boca do meu estômago, as pernas ficaram bambas e tive vontade de chorar, mas as lágrimas não ...
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O sabão, de forma geral, é o resultado da reação química entre uma base (soda cáustica ou potassa cáustica) e algum ácido graxo, sendo obtido a partir de gorduras (de boi, de porco, de carneiro, etc) ou de óleos (de algodão, de vários tipos de palmeiras, etc.). Na primeira hipótese (soda cáustica), são obtidos sabões duros, apropriados para formarem barras e pedaços; na segunda, sabões moles, ou mesmo líquidos. Já os sabonetes, constituídos por um sabão base destinado à aplicação dérmica, são especialmente aromatizados e têm sua cor alcançada por meio da adição de um corante, a anilina, adicionada durante a mistura juntamente com o perfume. Para sua fabricação, o tipo de gordura mais utilizado é o sebo bovino, assim como também o óleo de coco, que ajuda a obter mais espuma durante o banho.
O aparecimento do sabão se deu em data incerta, já que as informações sobre o fato são tão variáveis que abrangem um período que se estende por quase dois milênios, a partir de 2.500 antes de Cristo. Uma das versões a respeito dessa descoberta diz ...
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Na versão bíblica do Gênesis, “O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou-lhe no rosto um sopro de vida, e o homem se tornou um ser vivente (2:7)”. Esse texto transmite a idéia de que desde o início dos tempos a alma e o sopro, ou corrente de ar expelida do pulmão, têm uma relação estreita entre si, e a partir dessa interpretação a discussão sobre o que é a alma, considerada em simples definição da palavra como sendo o princípio vital e base da consciência e da conduta do indivíduo, não terminou jamais, fazendo com que através dos tempos as opiniões a propósito da sua natureza tenham variado profundamente de povo para povo, de religião para religião, de pensador para pensador.
Na alta antiguidade acreditava-se que a alma dos mortos vinha perturbar a existência dos vivos, e para impedir que ela fizesse isso os primitivos introduziam espinhos nos pés do cadáver, na suposição de que isto impossibilitaria o espírito de caminhar. Por outro lado, também se acreditava que a destruição ...
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Existem várias versões explicando a existência do lobisomem porque a crença nesse ser fantástico sobrevive em muitos países, sobretudo em meio às populações rurais. A mais antiga de todas esclarece que tal mito nasceu na Europa, onde se acreditava que o oitavo filho de um casal, depois de sete gestações seguidas em que haviam nascido somente meninas, estaria destinado a se transformar em lobo nas sextas-feiras de lua cheia, sempre à meia-noite.
Outra diz que o mesmo acontece com o filho de mulher amancebada com padre, e que essa transformação ocorre na noite imediata ao seu aniversário de 13 anos, quando o menino sai de casa, procura uma encruzilhada e lá se transforma em lobisomem pela primeira vez. Daí em diante, em todas as terças ou sextas-feiras ele corre pelas ruas e estradas desertas uivando de forma horripilante. Uma terceira hipótese assevera que em noites de lua cheia o sétimo filho homem de um sétimo filho homem se transmudará nessa criatura fantástica que sai à procura de sangue em caçada noturna cuja duração se prolonga até o amanhecer, momento em ...
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